Sobre o caso João Hélio
Atribuir causas à violência exige um embasamento que ultrapasse a conclusão apressada e decisiva de que esta seja simplesmente maldade. Banalizou-se a violência – é fato. Nada a justifica – é indiscutível. Deparamo-nos com ela todos os dias, nos noticiários. Sua constância é tamanha, que parece não mais nos despertar reação ouvir e assistir à cenas violentas. Tal falta de reação é, também, a certeza de se saber impotente diante da gravidade do quadro. Sentimo-nos à mercê da insegurança, vítimas em potencial de qualquer criminoso.
No entanto, casos como o crime que matou o menino João Hélio são absurdamente chocantes. Como avaliá-lo, senão com olhos extremamente piedosos para a vítima, extremamente solidários para a família e extremamente intolerantes para os assassinos?
Nas sociedades que têm avançado em práticas politicamente corretas, não se imagina qualquer ser vivo vítima de tanta barbárie – muito menos uma indefesa criança.
Entretanto, a população tem a seu dispor políticas ineficientes de segurança pública. E, muito mais grave: políticas ineficientes de educação pública.
Considero pertinente a referência à educação porque, neste caso especialmente, levantou-se novamente a discussão sobre redução da maioridade penal. Dados de pesquisa recente da secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) revelam que cerca de 90% dos jovens internados por terem cometido algum tipo de crime não completaram a 8ª série do Ensino Fundamental.
Portanto, a discussão que a mídia deveria propor é o que pode e tem que ser feito pela ascensão social e moral dos jovens, antes que cheguem ao crime. Para esta discussão é que é necessário o embasamento citado no início do texto. Não basta reduzir a maioridade penal. Um criminoso não se forma da noite para o dia.
A mídia precisa aprender que a discussão de temas fundamentais para a sociedade tem que pautar permanentemente sua agenda, e não vir à tona embalada por atos de selvageria como este.
Estudos outros têm mostrado a relação existente entre baixa escolaridade e criminalidade. Absolutamente, o pobre e o não-escolarizado é um criminoso em potencial – não se pretende sugerir tal idéia.
No entanto, a mídia não é exatamente a defensora de um mundo mais igualitário e fraterno. Ao contrário: obedece – quando não dita – as regras da competitividade, próprias dos mercados que alimenta.
Justiça, sim! Justiça sempre! Mas não apenas justiça para punir. Antes, justiça para igualar.
Por: Maria Inês |