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Fala Mestre!
Tania Zagury, mestre em Educação e pesquisadora
Tania Zagury, mestre em Educação e pesquisadora
 
Fala, mestre! Tania Zagury

O professor precisa ser ouvido

Para a pesquisadora carioca, os que pensam a Educação e os que estão à frente da sala de aula devem trabalhar juntos
Antigamente, quando o aluno não aprendia, era ele o único culpado: não estudava, não prestava atenção na aula e era desinteressado. De duas ou três décadas para cá, se a criança não aprende, a responsabilidade é toda do professor e da didática e metodologia ultrapassadas usadas em sala de aula. Ambas as posições - radicais e pouco fundamentadas - tentam justificar o péssimo desempenho dos estudantes brasileiros da Educação Básica nas avaliações. Mas nenhuma dá conta do recado de forma satisfatória.

Para tentar entender os reais motivos da sofrível performance dos alunos, Tania Zagury, mestre em Educação e pesquisadora, resolveu ouvir quem está na linha de frente dessa batalha: os professores. "Queria saber dos próprios educadores quais são suas dificuldades, necessidades e possibilidades". Com a experiência de 33 anos em várias funções do Magistério - de alfabetizadora e supervisora a formadora de professores - somada aos resultados da pesquisa, Tania concluiu que a sociedade e o próprio universo da Educação criam mitos que aprisionam o professor e acabam por prejudicar seu trabalho. E, pior, fazem com que ele muitas vezes se torne refém da própria consciência, por não conseguir atingir plenamente os objetivos.

A pesquisa, realizada ao longo de três anos, compilou a opinião de 1172 professores, de escolas públicas e particulares da Educação Básica de 42 cidades, em 22 estados brasileiros. As principais conclusões desse estudo estão no livro O Professor Refém, lançado no mês passado. Algumas delas Tania revela e comenta na entrevista a seguir.

NE: Quais os principais problemas do professor na sala de aula?

TZ: Os cinco principais são manter a disciplina (22%), motivar os alunos (21%), avaliar de forma adequada (19%), manter-se atualizado (16%) e escolher a metodologia adequada (10%) —todos diretamente relacionados com a atuação do professor.

Os entrevistados também apontaram o que eles consideravam as causas desses problemas: a formação inconsistente que tiveram ou continuam tendo, a falta de tempo e de recursos financeiros. Isso demonstra consciência da realidade, porque os professores poderiam simplesmente colocar toda a culpa no aluno. Eles sabem que não têm condições de ensinar o mínimo necessário - ler, escrever e fazer contas - para formar cidadãos.

NE: Como o professor se sente com o baixo rendimento dos alunos?

TZ: Ele se sente muito angustiado, às vezes até desesperado, pois quer fazer o melhor, mas simplesmente não tem condições para isso.

O Magistério é uma das profissões que mais tiveram aumento de tarefas nos últimos tempos. Além de ensinar conteúdos da área para a qual foi preparado, o professor tem de lidar com outros para os quais não tem nenhuma capacitação. Basta ver os temas transversais que fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais: cada um compreende uma área do conhecimento com sua própria complexidade. O professor de Matemática não está pronto para falar de Educação Sexual, nem o de Língua Portuguesa para ensinar questões ligadas ao Meio Ambiente.

NE: Essas novas funções deixam o professor desmotivado?

TZ: De maneira geral, ele continua tendo vontade de ensinar e de fazer bem seu trabalho, mas tem consciência de que está muito difícil. Por isso, ele está ficando estressado, deprimido, e isso faz com que se torne refém da estrutura educacional.

NE:Como essa estrutura aprisiona os docentes?

TZ: Ela é calcada na falta de continuidade. Um grupo de pensadores simpatiza com determinada linha pedagógica e começa a divulgá-la como sendo a melhor. Muitas vezes, quem está na sala de aula não tem informações teóricas suficientes para questionar ou rebater as novas idéias. Assim, os que não trabalham daquela maneira acabam se sentindo desatualizados, por fora, por baixo. Ficam na obrigação de começar a usar métodos para os quais não foram capacitados. E, às vezes, há mesmo essa imposição, pois o tal grupo de vanguarda assumiu o poder e instituiu mudanças por lei, sem discussão. Para promover uma grande mudança, é preciso base científica e técnica. Sem isso, aparecem os mitos que aprisionam o professor.

NE: Quais os principais mitos criados nos últimos tempos?

TZ: Um deles é que afeto e carinho são imprescindíveis na aprendizagem. Eles são importantes, mas não determinantes. Esse mito acaba dando a entender que um professor que não faz brincadeiras, mesmo dominando os conteúdos, não é competente. Se ele é frio nas relações pessoais, é rotulado de inapto. Outro mito que paira sobre as escolas é que, se o professor é bom - ou seja, criativo, dinâmico e usa diversas ferramentas de ensino -, qualquer aluno aprende. Claro que tudo isso é importante, mas também não é suficiente. Para aprender, é necessário que o aluno esteja motivado, que estude, faça as lições e se esforce. Só aulas maravilhosas não bastam.

NE: Mas não é função do professor motivar os alunos?

TZ: Com certeza. Mas não se pode atribuir somente a isso o sucesso ou o fracasso da aprendizagem.

A motivação é um processo interno do aluno e não envolve mágica, mas didática. Não adianta o professor chegar na frente da sala e dar um show. O processo todo envolve principalmente comunicação, ou seja, a escolha do código adequado para aquela disciplina e para o público em questão. O papel do professor é iniciar esse processo, trazendo coisas interessantes para o aluno, de acordo com a faixa etária.

Ligar o conteúdo à realidade tem se mostrado um método bastante eficaz. Alguns conteúdos, no entanto, não se prestam a essa estratégia. Isso não significa que devam ser retirados do currículo.

NE: O professor deve usar o lúdico no processo de ensino e aprendizagem?

TZ: A escola não precisa ser o tempo todo atraente e lúdica como algumas teorias propõem. Quem defende isso nunca deu aulas e muitas vezes não é especialista em Educação. A escola tem de ensinar que para conseguir alguma coisa é preciso esforço e dedicação.

Caso contrário, ela estará apenas enfatizando valores que a sociedade preconiza e prejudicam a Educação.

NE: Que valores são esses?

TZ: A sociedade tem uma parcela significativa de culpa pelo fracasso da Educação no país. Ela está cada vez mais consumista e imediatista, voltada para a busca do prazer e para a criação de desejos e necessidades. A mídia dá um valor absurdo à fama, ao poder e ao dinheiro. O saber e as conquistas intelectuais são minimizados. Esforço e dedicação não são méritos levados em consideração. O discurso teórico defende que a Educação é imprescindível, mas o que se vê na prática é um endeusamento do que é fácil e do que dá prazer imediato.

E aprender, muitas vezes, é difícil e sofrido. Com o saber desvalorizado, a escola e o papel do professor também ficam desprestigiados.

NE: Mas, apesar de todas as dificuldades, os professores ainda não entregaram os pontos...

TZ: Alguns desistem e mudam de profissão. Dos que ficam, poucos têm má vontade.

A maioria se vira e tenta fazer o que pode. Mas esses também acabam reféns, dessa vez da própria consciência, pois acham que não trabalham como gostariam e deveriam. Isso fica muito claro quando os entrevistados apontam a dificuldade em avaliar os alunos.

A maioria dos educadores acredita na eficiência da avaliação qualitativa, mas reconhece não fazê-la como deve. Para avaliar as conquistas na aprendizagem de conteúdos, de procedimentos e de atitudes, o professor precisa olhar para cada um de maneira singular. Ora, mas como fazer isso com mais de 40 alunos por sala, dando aula em mais de uma escola e sem tempo para planejar instrumentos de avaliação variados? Resultado: ou ele faz o que dá e sente culpa por não fazer bem feito, ou escolhe outro tipo de avaliação para ser menos injusto com o aluno.

NE: Como deveriam ocorrer as mudanças na área da Educação?

TZ: Qualquer mudança deveria ser precedida de um projeto piloto para testar sua eficácia, prever os problemas que podem surgir e já propor uma solução antes da aplicação em todo o sistema.

As inovações devem ser avaliadas para não haver dúvidas de que elas produzirão os resultados esperados. Mais do que isso: é necessário ouvir o professor, que afinal de contas é quem está na linha de frente, é quem implementa todas as novidades. Com isso não quero defender que é preciso pedir licença ao professor para tomar uma decisão político-pedagógica, mas é imprescindível acabar com essa dicotomia entre os que pensam e os que fazem a Educação.

NE: Mas as Secretarias de Educação costumam oferecer capacitação quando mudam o sistema...

TZ: O treinamento é feito durante o processo de implementação do projeto e não a priori, como deveria. O professor precisa ser instrumentalizado para ter domínio das técnicas e se sentir seguro antes de entrar na sala de aula. Sem isso, fica muito difícil resolver os diversos problemas que aparecem. Acho que foi essa falta de envolvimento que comprometeu a implantação dos ciclos na escola pública.

NE: Os professores são contra o sistema de ciclos?

TZ: Para minha surpresa, não. Eles são a favor, mas desde que outras medidas também sejam adotadas ao mesmo tempo.

Na pesquisa, 66% dos entrevistados afirmaram que só vêem sentido no sistema de ciclos e na progressão continuada com o aumento de carga horária dos estudantes na escola e um esquema para dar reforço aos que têm dificuldade em acompanhar a turma. E os professores têm razão: nos países em que os ciclos deram certo, as classes foram organizadas com menos alunos, os professores tiveram aumento substancial no salário para poder dedicar-se em tempo integral à escola e receberam treinamento antes de começar a trabalhar dessa forma.

NE: Como driblar essa falta de estrutura da escola pública?

TZ: Não podemos supervalorizar os recursos tecnológicos, porque nada substitui a presença e a interferência do professor em sala de aula. Ele pode levar uma caixa de papelão fechada para a classe, colocar em cima da mesa e pedir que a turma adivinhe o que tem dentro. Lá pode estar simplesmente um exercício ou uma proposta de atividade, mas isso já vai provocar a turma.

O professor tem de mostrar a beleza e o poder das idéias usando os recursos que tem, mesmo que isso se resuma a quadro-negro e giz. Muitos colegas estão se virando para melhorar sua formação: mesmo não tendo dinheiro para comprar livros, quem está interessado em se aperfeiçoar vai à biblioteca da escola ou da cidade ou usa a internet - em casa, na escola ou em lugares públicos.

Mas nada disso isenta o governo de fazer seu trabalho e oferecer melhores condições para o docente, ouvir os professores antes de qualquer mudança e se comprometer com a Educação.

NE: Qual uso você gostaria que as pessoas que estão em cargos de comando na Educação fizessem com as informações de sua pesquisa?

TZ: Faltava ouvir o educador, e isso nós fizemos agora. Se os governantes usarem os dados e começarem dar voz ao professor antes de qualquer mudança radical, estarão criando chances para quem trabalha em sala de aula também se sentir responsável pelas mudanças e aderir ao projeto. Assim, eles poderão apontar o que está dando certo e o que é necessário fazer para melhorar o resultado do trabalho. Falam tanto em afeto em relação ao aluno, por que não ter afeto também em relação ao professor?


Revista Nova Escola
Índice da edição 192 - mai/2006
Matéria: Paola Gentile